segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Um pouco da minha busca e como seria legal valorizar a minha LUTA.

(eu aposto que essa história não é só minha - tirando os detalhes).


Não é novidade o quanto já me mutilei - mentalmente - por não ter êxito nas tarefas que desempenhava, mesmo tendo todas as oportunidades possíveis nas mãos. Enquanto graduanda em um dos cursos mais difíceis do Brasil, sofria inúmeros embates a cada semestre, ora com colegas, ora com professores. Também tinha aqueles embates invisíveis, mas que me consumiam com o mesmo peso. 
Paralelamente, existia sempre aquela voz que gritava ao ponto de fazer vibrar o peito, dizendo "vá! Força! Você precisa se salvar! Você precisa resgatar muita gente que precisa de ti! Vai dar certo.... segue.... força.... segue..."

- Já fui agredida verbalmente por colegas e professores.
- Já chamei a polícia para dentro do campus (posso garantir: a diretora, à época, AMOU hahaha)
- Já fui estuprada por um colega que achava que era meu amigo.
- Já fui abusada psicologicamente e fisicamente pelo meu ex psicólogo (dura experiência, quem sabe um dia a gente não fala disso?)
- Já iniciei uma guerra violenta  não verbal com um professor, não passando na matéria dele e sendo preciso repeti-la. Na repetição da matéria, com um outro professor (o demônio é onipresente rs) a guerra não verbal foi ainda pior, pois eu já estava com a minha saúde mental bastante debilitada. Nesse caso, o Assédio Moral era claro e evidente!
Também não passei na disciplina. 
Mas formei, meses e mais meses depois (ufa! rs). Virei médica... AAAÊÊÊÊÊ 





Nascida e crescida em Minas Gerais, casa montada, emprego arranjado em 2 lugares, família feliz por ter a primeira filha a concluir uma graduação - ainda mais em Medicina - amigos e amigas pertinho de mim... Tudo sobre "estabilidade" ali, vivo e radiante. Tudo o que muita gente sonhava em ter. Era só ir lá registrar o CRM e estaria tudo certo, loguinho eu seria uma dotôra arretada (e rica, segundo meu pai rsrs), certo? 
Certo nada, pois de repente... puuufff!! 

Amanheci em Recife - Pernambuco e para trabalhar em Olinda. Quase literalmente dessa forma. Decidi que viria, larguei tudo pra lá, peguei a minha gatinha branca que se chama Lara e é o AMOR da minha vida, uma mala com algumas mudas de roupa, um dinheiro emprestado com meu tio e pronto.



Não conhecia um inseto por aqui, apenas a referência virtual de 03 pessoas que eu procuraria quando chegasse - e que acabou sendo meus anjos de guarda
(eis: Ruy, Diana e Alexandre, sendo que o último, posteriormente, me seduziu e acabou por se envolver amorosamente comigo, sob a brisa fresca do Recife Antigo e no Bar do Haroldo, com direito a amanhecer o dia na praia de Boa Viagem rs).

Um comentário importante e que permeia o universo de minhas reflexões que se seguem: se o diabo realmente amassa pães, eu comi um desses aí. Comi e em alguns dias eu como de novo no café da manhã, que é pra não perder o hábito de começar o dia já no grau!

Penso todos os dias no que fiz e se valeu a pena. Penso se valeu a pena largar a "estabilidade" que eu tinha para construir a "estabilidade" que eu quero num lugar que eu continuo não conhecendo muitas pessoas. Penso todos os dias que raios de  "estabilidade" é essa que tanto falo!

Fiz alguns contatos aqui que valem mais que ouro, também tive brigas que nunca tive antes. Mas o que mais toca... Mermã/mermão... A CONSCIÊNCIA que adquiri aqui sobre o que me ocorreu nos últimos tempos, durante toda a minha vida e sobre o quão doente eu estava foi de assustar. É de assustar.
Hoje, encaro a obscuridade de um diagnóstico que ainda julgo pesado, mas que a cada dia vem fazendo mais sentido. Faz sentido, explica, acalma, tira aquele peso HORRÍVEL de você achar que aquele comportamento ruim é "seu" porque você não é "forte" o suficiente para evitar. Reconhecer que tenho uma doença de ordem mental, diagnosticada por uma médica competentíssima, tem as suas  conotações muito intensas: me mostra que eu posso ser saudável se cuidar, que ter doença de ordem mental não é vergonhoso, que apenas rezar não passa, ir em centro espírita não cura e que tem coisas que assumir é a melhor caridade a se fazer por si mesma. 
Conviver com pessoas que menosprezam essas doenças e fazem brincadeiras jocosas de outras pessoas, só me faz ter piedade, pois elas nada sabem do que estão falando.  
Reconhecer a existência de uma doença que a sociedade estigmatiza demais te torna, apenas, mais humana. Tão humana quanto aquela mulher Z que eu atendo no consultório e que sente sempre o quão perturbador é ter X sintomas e reações que nunca foram olhadas com atenção por puro preconceito, tanto dos familiares/dela mesma, quanto d?s médic?s. Um pouco a mais de atenção e um pouco menos de preconceito e ela, provavelmente, estaria bem, feliz e produtiva.

Não tenho QUAISQUER conclusão sobre uma só palava ou frase dita. Mas me arvoro no consolo de que a Medicina está aí, me ajudando e me ensinando a ajudar...
 E que se eu larguei a "estabilidade" que tinha, é por reconhecer uma frase que tenho vontade de tatuar na testa, dita por meu meu amado amigo Luiz, do RJ: "se quiser segurança, tem que clinicar longe do povo". E eu não quero clinicar longe de quem realmente precisa de mim, da médica e mulher humana incrível que eu sou e ainda não descobri.


Como gosto sempre de finalizar: AVANTE!

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