sábado, 1 de abril de 2017

E essa sensação horrível de que tudo está muito errado?

   Rafaela*, sempre tão tranquila e de dizeres quase sempre dotados de sabedoria, naquele dia possuía um olhar triste e um jeito confuso de se portar frente a imensidão de seus turbulentos pensamentos. Entrou no consultório oscilando entre lágrimas e uma urgência talhada que intentasse dizer o máximo de palavras possíveis em um mínimo espaço de tempo, esquecendo que eu estava ali para ouvi-la até o pôr do Sol, se preciso fosse. E Rafaela falou. Falou. Falou até não ter mais voz. Falou até ser preciso pará-la e oferecer-lhe um copo d'água.
   As chagas que alguns de seus relacionamentos fracassados deixavam, as aspirações profissionais frustradas, o receio de ter falhado magnanimamente no maior empreendimento que julgava ter feito até então. Rafa era a representação viva da dor, da angústia, da culpa... Do medo que ficar bem trazia. Observamos, juntas, que o seu tratamento médico estava incompleto e que, isoladamente, as medicações não funcionavam para tudo. Era preciso algo que lhe preenchesse o vazio que ela mesma relatava na maioria de suas expressões. Os sintomas do transtorno psiquiátrico de base estavam controlados, mas aquele grito ali, daquela mulher chamada Rafaela, era de alma, nada tinha de doente, e isso eu ouvia bem. 
   Saberia oferecer algumas sugestões para ajudar a aliviar aquele drama íntimo, mas como posso sugerir algo que está limitado pela minha ótica? Como posso sugerir algo que passa, apenas, pelo meu crivo, minha experiência, minha vivência, minha razão? Não me sentia confortável em ser tão invasiva e optei por fazer perguntas. Perguntei quais as sugestões que ela daria a mim se estivéssemos em papéis diferentes. E como descobri o quão semelhante somos!
   Falamos de filmes, de atividades prazerosas, de coisas engraçadas do dia a dia, numa tentativa mútua de enxergar algo além de toda aquela tensão.
   Falamos sobre razões para viver.
   E razões para desistir.
   A consulta não teve um fim e concluímos que isso não se dá nem mesmo com a morte, pois o conflito, o duelo, a vivência socialmente vista como clichê é algo que só o tempo e a vida consegue possibilitar o encontro das respectivas respostas - caso existam. O tempo e a vida, não a morte.
   Não sei quais benefícios eu levei para a vida de Rafaela, não a verei nos próximos dias para avaliar se o nosso diálogo teve algum efeito. Sei, apenas, que os benefícios que ela trouxe para a minha vida são memoráveis e não há um só momento do dia que isso passe despercebido. Não me esqueço daquela imensa capacidade de resistir à "força negativa" (expressão usada por ela mesma) e valendo-se da coragem, fé e perseverança que está ali, presente e por baixo de cada dorzinha que foi exposta. Da vontade de melhorar seus mínimos atos diários para alcançar um dia menos esvaziado de sentido.    A presença mental de Rafaela me serve como uma ferramenta de auto-ajuda, uma vez que nos encontramos em buscas muito semelhantes: superar essa sensação horrível de que tudo o que fazemos está muito errado, que o fracasso nos acompanha e que o desastre é certo. Não, isso é um erro!  E aquela luzinha atrás daquela dorzinha assegura isso muito bem... Aquela vozinha fraca que nos diz o quanto somos fortes, bonitas e capazes é a âncora que nos falta para segurar firme e nos tirar desse afogamento diário a que nos submetemos e nesse lamaçal de dificuldades sentimentais.

   Obrigada, Rafaela. Essa luta é contínua e é nossa.





* Nome fictício.